Monday, October 21, 2019

Papai Toninho - Um Ano


Chegou o dia 21 de Outubro de 2019. Confesso que o esperava com muita apreensão. Tal qual que para manter minha sanidade mental e física procurei não o antecipar de nenhuma forma.

Hoje faz um ano do falecimento de meu queridíssimo pai, Antônio Alexandre de Moraes. Não planejei o que eu iria escrever sobre isso, apenas deixei meus pensamentos fluirem conforme começava a escrever, pois como disse, tentei não adiantar esse momento.

Posso dizer que nesses doze meses eu e minha família passamos pelas mais diversas provações e verdadeiras avalanches de emoções. Posso também dizer que eu não entendia nem 1% do que é passar pelo luto quando se perde um ente tão próximo e tão amado, de forma inesperada e prematura.

Inevitavelmente uma nova jornada começou. A vida, de fato, mudou completamente. É um sentimento ambíguo. Parece que me foram dadas duas vida diferentes, que a última atropelou a primeira e já chegou com uns cem anos de bagagem mas zero de experiência.

Tudo é novo, novidade. Palavras que geralmente carregam um sentimento positivo e de otimismo. Não é bem isso, contudo, o que senti. Mas se não usar a palavra “novo” e “novidade”, quais palavras me restam para descrever esse sentimento?

É quando se percebe que até as palavras certas nos faltam à boca. Os significados das palavras mudam. Aparecem sentimentos que nunca concebíamos existir. E isso é uma pequena amostra, e um quanto tanto abstrata, do que se trata essa nova jornada.

Não tenho dúvidas de que se deva viver bem o momento presente. E não digo isso simplesmente como diz aquele ditado pagão “carpe diem”. Deve-se viver bem o momento presente principalmente na forma de amor à vida e especialmente amor àqueles que Deus nos colocou mais próximos a nós.

E não devemos viver a vida com medo daquilo que pode ser que ainda nos aconteça, pois nunca saberemos o que a vida reserva a cada um de nós e de certo modo, viver assim seria desperdiçar o presente.

Olhando em retrospectiva tenho algumas idéias de como eu poderia ter mudado um pouquinho os eventos passados para que pelo menos eu pudesse ter tido a oportunidade de me despedir de meu pai ou pelo menos ter passado mais tempo junto. Mas a verdade é que nenhuma dessas realidades paralelas eram factíveis. Confesso que isso me dá certa paz de consciência, mas o raciocínio não é capaz de me trazer consolo.

O que para mim é difícil de lidar são as perguntas que ficaram sem respostas. Uma pergunta não ter resposta é diferente de uma questão não ter explicação. É uma sensação de vácuo, de inacabado, quase de inexistência, pois se a palavra “pergunta” existe é porque se pressupõe que haja uma resposta.

É então que nessa jornada se aprende a ceder. Ceder na marra, ser vencida pelo cansaço. E então a busca pela paz começa, mas quem que já passou por luto semelhante terá conhecido seu fim? Mínima aceitação é necessária, mas raramente algo que se consegue de forma definitiva. Oscilações. Pode-se dizer que essa nova jornada se assemelha a uma viagem de barquinho sempre suscetível às ondas, com momentos de relativa calmaria e de tormentas também.

Sim, as perguntas que surgem ou ressurgem se mostram muitas. Percebe-se quão pouco você entende do que se trata a vida realmente. Mas dentre todas as perguntas, tenho algumas certezas. Tenho a certeza do quanto Deus amou e ama a meu pai. Do quanto sua vida de entrega generosa e alegre aos demais e até desconhecidos agradou a Deus. E a certeza de que Deus te quis perto dEle. É uma certeza rudimentar. E disso tenho paz: você está aonde deve estar agora. Sinto a sua paz de estar em Deus. Vejo os seus frutos e filhos espirituais.

Essa não é a pior das questões que tive que processar e compreender, mesmo que minimamente pois mesmo se eu não acreditasse em Deus, eu teria que aceitar que para algumas pessoas tal destino lhes é reservado. Que para muitos “the good die young” e o fim da vida humana inevitavelmente chega a todos.

As conclusões são poucas. Mas dentre elas gostaria de escolher algumas para finalizar esse texto. Uma delas trata-se da constatação da amizade verdadeira de muitas pessoas que imediatamente e durante todos esses doze meses se mostraram presentes, solícitas e compadecidas. Que nos trouxeram alegria quando menos condições tinhámos de estarmos alegres. Que nos trouxeram esperança na humanidade caída. De fato, esse amor fraterno foi a melhor constatação dessa nova jornada. E isso fez toda a diferença. Pois deixo aqui o meu apelo, que se você se encontrar na posição de ajudar alguém que esteja passando por um luto, não deixe de o fazer. Tente não ficar apenas na boa intenção.

Também tivémos muitos sinais da presença de Deus e de meu pai em Deus que nos dão uma confiança na existência de Céu e que meu pai lá se encontra já há muito tempo. E eu digo que a santidade de meu querido pai é seu maior legado e conforto para mim e minha família. A conclusão de que ele agora vive eternamente no Céu é minha maior alegria e minha esperança. Minha motivação, minha constante ajuda.


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