Friday, October 11, 2019

A preciosidade das crianças

Na Quinta-Feira Nico não teve que ir à escola devido ao recesso escolar de outuno. Ele estava muito animado desde o começo da semana sabendo que teria uma folguinha. Mas Quinta-Feira chegou e Nico logo ficou muito rabugento exigindo coisas que eu não iria ceder. Era briga no café da manhã, briga pra assistir TV logo cedo, depois briga pra escolher o desenho, briga pra ver seu eu o deixava usar meu celular, briga com as irmãs, etc. Cheguei a perder a compostura e berrar algumas vezes, como se isso ajudasse a resolver nossos problemas.

Depois do almoço coloquei a irmâzinha, Vicky - a muito contra-gosto - pra tirar uma soneca e deixei a mais velha, Rebecca, escolher o que ela queria assistir na TV já que ela tinha passado a manhã fazendo suas lições de Homeschooling. Nico não se interessou pelo o que a Rebecca estava assistindo e foi ao meu encontro na poltrona que fica no meu quarto. Eu percebi que ele estava entediado e falei para ele me trazer alguns livros que pegamos emprestado da biblioteca. Nico está aprendendo a ler e precisamos praticar a leitura todo dia.

Conforme fomos lendo juntos, eu percebi como sua cabeça se apoiava em meu braço desapercebidamente. Ele estava uma gracinha, se esforçando, cooperando. Mas depois de um tempo o Dani me ligou no celular e eu atendi. Enquanto isso, naturalmente, Nico perdeu a atenção, se levantou, e foi buscar uma colagem de fotos de meu querido pai falecido há quase um ano, que tenho impressa e deixo a mostra em uma mesa de meu quarto, bem à frente da poltrona em que estávamos. Enquanto eu ainda falava no celular, eu ouvi o Nico me dizer: “eu sei quem é Toninho”. Eu me apressei pra desligar o telefone e poder dar atenção ao Nico, que queria conversar sobre o vovô.

Antes, uma breve explicação. Alguns dias atrás ele tinha me perguntado enquanto andávamos de carro qual era o nome do vovô. Dúvida normal, já que eles sempre chamam vovô de vovô, vovó de vovó, batian de batian e jitian de jitian (vó e vô em japonês). Daí falei que era “Toninho” e eles começaram a praticar, pois o som do “nh” não existe na língua inglesa.

Mas agora voltando à história, Nico voltou a se sentar comigo na poltrona e começamos a olhar juntos as fotos do vovô Toninho.Tinham duas fotos do Nico e vovô juntos, Toninho muito sorridente. Depois de um tempo percebo que Nico começa a se emocionar. Perguntei se ele estava triste, respondeu que sim e começou a chorar. Tentei por vários minutos conversar com ele sobre coisas bonitas. Falei como o vovô era feliz, sorridente, uma pessoa muito boa que sempre ajudava todo mundo. Falei que estava no Céu, feliz, olhando agora mesmo para nós. Tentei passar algumas perspectivas positivas, tentei animá-lo, mas nada estava ajudando. E no meio disso tudo, a pergunta: “ele não vai mais voltar?”. Acontece que Nico com 6,5 anos está começando a entender o que tudo isso significa. E bateu saudades, e saudades daquilo ele não teria nunca mais de novo.

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Hoje é Sexta-Feira, segundo dia do recesso escolar de outono. Dani teve que ir trabalhar mais cedo e eu tive que cuidar do café da manhã e de toda a rotina matinal. Levei todos comigo na Missa, o que é sempre um desafio. Me stressei em vários momentos mas acabamos ficando fora de casa praticamente toda a parte da manhã, o que sempre ajuda a distrair os ânimos das crianças. Chegamos em casa perto da hora do almoço.

Servi sopa canja de galinha com uma fatia de pão. Eles adoram uma boa canjinha e um bom pão. Mas acontece que detesto jogar comida fora e sempre procuro acabar com todos os restinhos que temos guardados na geladeira ou freezer. Logo, a sopa de hoje era repeteco do almoço de ontem. E ontem eles tinha adorado e não pararam de elogiar a comida, mas hoje já não estavam tão entusiasmados com o almoço como no dia anterior. E começaram a brincar com a comida. Eu também não gosto que brinquem com comida, que haja desrespeito.

Meus filhos como cidadãos americanos de certa classe social não tem o mínimo contato com extrema pobreza ou necessidade! Outro dia mesmo eu estava comentando com o Dani como nós que nascemos no Brasil, tinhámos certa consciência desse outro mundo, seja vendo crianças pobres mendigando nas ruas, ou até mesmo passando por favelas à beira da estrada. Mas nossos filhos não sabem nem mesmo o que é passar um pouco de necessidade pois temos condições de dar tudo o que precisam e até tudo o que desejam – até agora ninguém pediu um Mac Book de presente de Natal.

As vezes penso até que pode não ser benéfico que tenham tudo o que tem ou até mesmo penso que tenha algo de errado em desejar fazer a vida deles a mais divertida possível. Tenho meus dilemas intelectuais quanto a essas questões, confesso. Sei que é importante e faz bem o tempo em família ser legal, divertido. Cria conexões saudáveis e essenciais. Talvez o que esteja faltando seja engajamento em questões sociais, coisa que já penso no assunto mas ainda não consegui me organizar e fazer acontecer.

Enfim, mas voltando a questão do respeito com a comida que se come, comecei a contar para as crianças uma história que acabei de ficar sabendo pelo instagram, de órfãos do leste europeu que passam extrema fome. Claro que guardei de não falar qualquer detalhe que pudesse traumatizar. Mas Nico mais uma vez me surpreendeu e perguntou: “quando eu for grande, posso ajudar eles?”. Ao que respondi: “Nico, que ótima idéia, têm várias formas que você poderia ajudar quando você for grande... “ – e dei alguns exemplos.

Alguns minutos depois ainda na mesa de jantar, eu nâo me aguentei e disse: “ Nico, fiquei tão feliz que você disse que queria ajudar quando crescesse!”

Ao que ele me responde:

“É que quero ser como o Toninho”.

❤️

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